Projeto Lucy in a frame with spotlights

O que é o projeto e suas etapas

O corpo do outro revela nossos segredos mais íntimos. Sobre ele incidem politicas de controle, dinâmicas das relações de poder, inscrevem-se valores e normas, estabelecem-se o jogo identidade-alteridade, determina-se o que é permitido e o que é interdito. Olhar para o corpo é, então, a possibilidade de dar sentido a essa linguagem que fala dos conflitos e mazelas do homem e seu tempo.

Talvez por isso o nu seja vivido como tabu: do Gênesis Bíblico, que narra o primeiro ato de rebeldia humana, punido com a imposição de roupas e com expulsão do paraíso, até as dezenas os relatos de suspensão e encerramento de contas em redes sociais (Facebook) por publicações de nu, algumas de autores reconhecidos mundialmente, como Picasso ou Dali. Mas o que há de tão ofensivo, o que se desnuda em mim ao ver o outro nu?

Nosso palpite é que o nu evidencia uma tensão entre aquele que olha e aquele que é visto, entre o que a modelo oferece e o que o fotografo pode perceber, entre o que desejamos e o que podemos produzir. E esta tensão não é outra coisa senão o velho embate entre original e cópia, verdade e mentira, o que nos faz enfrentar nossa ambivalência frente às imagens: celebramos aquilo que nos dá acesso ao original, ao mesmo tempo em que condenamos a vã aparência nos afasta dele. Iconofilia e iconofobia, a imagem exprime o afastamento e a proximidade do original. É neste campo de batalha entre a imagem que produzimos do corpo e o corpo de carne e osso, que gostaríamos de pensar a constituição do nosso olhar.

Este projeto é nossa tentativa de elaborar melhor essas questões, em encontros práticos com provocações teóricas, divididos em três módulos com seis meses cada. No primeiro, módulo Apolíneo, retomamos técnicas básicas da imagem renascentista, em exercícios que conjugam simetria\assimetria, proporção\desproporção e perspectivismo com a fotografia, que por excelência joga com a luz e sombras. Técnicas que nos auxiliam a analisar, desconstruir e criar modos de reconstruir a imagem, atravessando a reprodução (mimese), e seguindo em direção à criação (novas leituras).

Argumento

“Não era a vaidade que a atraia para o espelho, mas o espanto de descobrir-se”. Essa frase de Milan Kundera extraída do livro “A insustentável leveza do ser” pode ser uma boa provocação para pensar a construção da imagem. Descobrir-se é refazer-se, usar o exterior como espelho diacrítico, constituir-se através de uma relação com o fora, o outro como destino. E é por dentro desta relação entre modelo e fotografo que gostaríamos de pesquisar como a imagem é construída.
Didi Huberman nos da uma pista quando afirmar que “O que vemos só vale, só vive aos nossos olhos pelo que nos olha”. O que vemos também nos olha. E o que nos olha tem a capacidade de ativar memórias que talvez sozinhos sequer lembrássemo-nos de tê-las vivido. Os objetos como memória externa ao nosso corpo, um corpo com próteses cotidianas para dar conta de tudo o que vivemos no instante em que vivemos. Todo exercício de composição de imagem trata de reaprender a ver. Nós nos desnudamos ao olhar o corpo do outro.
E é esse o maior desafio do projeto: reaprender a ver. Há 10 anos atuo como modelo na cidade do Rio, e desde 2014 passei a produzir intervenções diretas sobre o trabalho do fotografo, organizando workshops, e é com base nessas experiências que posso afirmar: ao tirar a roupa, a modelo é vestida por noções sobre o que é o erotismo, a sensualidade, a sexualidade, sobre o que é a própria mulher. Essas noções poderiam ser atualizadas no encontro da modelo com o fotografo, contudo, a ideia de que ao invés de construir a imagem, o fotografo a captura prende a modelo numa espécie de camisa de forças que impede que seus movimentos sejam percebidos de outro modo que não num exercício de enquadramento.
Assim, a primeira coisa que peço ao fotografo quando diante da modelo ou apenas analisando uma imagem é descrever o que ele vê, dizer o que imagina diante do que vê e o que sente. São ferramentas da filosofia da percepção de John Searle, que ajudam o fotografo a perceber a enorme distancia que existe entre ele e a modelo, o que ele vê, imagina e sente é dele, e pode ser muito diferente daquilo que a modelo deseja expressar num gesto.
Então, por mais que ele tente a repetição do mesmo no eterno e conhecido esforços de captura o objeto, isso não basta, porque o trabalho do fotografo, especialmente com o nu, implica em relançar um olhar sobre o ser humano, ou seja, sobre si mesmo. Pensar-se intempestivamente, agir ao invés de reagir, atravessar noções que arrastam e aprisionam, ter coragem de se comprometer com um presente sem se submeter a ele.
A distância entre ação e reação é simetricamente proporcional a distancia entre criar e reproduzir. E provocar ações exige que nos desviemos e\ou atravessemos as reações para criar algo. E não há outro modo de atravessar a reação\reprodução, os signos definidos e dados, se não nos empenharmos em rachar as palavras, rachar as coisas. E é aqui que a relação do fotografo com a modelo assume o lugar de campo de pesquisa e experimentação.

Primeiras aulas do módulo 1 – apolíneo: linhas, simetria, proporção, perspectiva e mimese

aula 1 – sessões entre 2014 a 2017

Aula 2 – entre 2014 e 2017

Aula 3 – entre 2014 e 2017

Aula 4 – entre 2014 e 2017

Primeiras aula do módulo 2 – dionisíaco: o movimento

aula 1 – entre 2015 e 2017

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