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Dia 30 de dezembro de 2018

“Pode-se dizer o que for sobre essa moça — e certamente outras coisas mais, além do que diz minha irmã –, mas não deixará de ser verdade que nunca encontrei pessoa mais doce e mais ponderada. E embora nunca tivéssemos concordado, como tambem nao concordava com Ree, éramos felizes os dois por termos aprendido tanto, depois de cada meia hora que passávamos juntos. Não foi por acaso que realizei minha maior obra nesses últimos 12 meses”.
Nietzsche sobre Lou.

Uma musa pede alguém que lhe ofereça pequenas orelhas, alguém que transpire em febre, que afirme a loucura da lucidez diante da dor lancinante. Alguém que atravesse o deserto do ressentimento. Uma musa eh alguém de carne e osso e corpo perecível que precisa de um labirinto p parir. Sou teu labirinto, diz Dionísio. Por isso importa mais a entrada do que a saída. Uma fúria santa p criar. Lou e Nietzsche são um enigma que poeta algum conseguiu separar (a covardia mesquinha de Ree me faz detestar os poetas), determinacao moral alguma conseguiu prender (Elisabeth bem que tentou), tempo algum conseguiu apagar. Ato falho humano que a vida parece ter prazer em afirmar. O inumano se apresenta quando ambos persistiram não em superar, mas em atravessar seus maiores demônios, ele, a solidão e ela, a liberdade. Esse eh o eterno retorno. Uma espécie de sol negro dos tarahumaras. Que atravessa toda a noite e ainda deseja brilhar. Espíritos livres.

Dia 01 de janeiro de 2019

Nao encontrei a paz na velhice, apenas a imensa e dolorosa insatisfação do espirito criador. (…) Quanto mais tempo, e mais intensamente, o homem trava a batalha com a vida, mais ele avançará, p além das desgraças mais profundas, nessa marcha de deus p deus.

Fala de Kuno, personagem de Lou Salomé, no livro Uma luta por Deus, publicado em 1883, que ela escreve ainda sob influência do encontro com Nietzsche em 1882.
Nietzsche por sua vez escreve e pública Assim falou zaratustra entre 1883 e 1885. Livro inspirado em muito por seu encontro com Lou.

Posse de Bolsonaro

Meu pai: Não duvido nada que ao tomar posse, Bolsonaro não faça feito o Lula. Lula arruinou com o apoio de todos os trabalhadores. Preferiu virar um ladrão.

Minha irmã: pai, libera, grita, lula ladrão, roubou meu coração!

Meu pai: meu coração eh o caralho, aquele ladrão, não duvido nada que esse dai tbm vire ladrão. Não sei o que tem nessa rampa, qdo eles sobem ficam assim.

Meu pai eh mecânico. Desde que saiu do exercito aos 19 anos presta serviço para as docas de santos. Foi o único trabalho que teve. Aposentou em 1995. Sua vida desmente a máxima da meritocracia que diz, deus ajuda quem cedo madruga. Com carteira assinada foram 25 anos de trabalho em área insalubre e meticulosa. Saia de casa as 5h da manha e retornava por volta das 19h. Hoje, o unico modo que ele ve de fazer justiça a tanto trabalho e tão pouca remuneração eh jogar na loteriada. Me acordou hoje dizendo que 52 pessoas haviam ganhado na virads. Ele não, infelizmente, p mim. Mas estava contente porque lhe parecia justo que o premio de mais de 300 milhões fosse dividido.

Dia 02 de 2019

A senhora de 75 anos que desde o Natal tinha medo de dormir e não acordar mais, faleceu hoje. Suas filhas lhe deram a dose do remédio que tornava o câncer de pulmão respirável. Ela lhes apertou a mão, como costumava fazer com os parentes que lhe visitavam e se foi. Nesses dias em que fui visita-la, imaginava que devia ser amedrontador estar diante do desconhecido e ter de se lançar. Precisa de tempo. Mas há uma hora certa. Como quando nascemos. Não basta o útero materno expelir-nos. Temos que fazer força também p atravessar a vagina: cabeça, ombros, secreções, sangue, líquidos, e aceitar que aquele lugar de conforto, no qual nos aninhavamos, não pode mais nos acolher. Então, vem o maior susto, que faz muitos de nós chorar, o ar nos entra pulmão a dentro e somos inundados pela violencia da vida.

Depois vem a exaustao por termos atravessado aquele momento de grande medo. Acho que eh isso que faz com que mãe e filho sejam cúmplices. Na morte parece que estamos sozinhos. Vamos do sujeito ao nada. Experimentamos talvez, o neutro. Esse estado de potência pura. Partir ou parir não eh deixar de fazer parte desse mundo imperfeito e lindo. As vezes acho que eh justamente aprender a compo-lo de maneira diferente da que estávamos acostumados.

Meu pai ontem me dizia do passarinho que tiramos da boca da gata. Havia uma revoada deles no céu qdo o tempo fechou aqui em Indaiatuba. Daí meu pai apontou p o céu e me disse: está vendo, o passarinho que soltamos pela manhã pertence aquele bando. Eles ficam agitados qdo o tempo muda.

Sobre Lou Salomé

“Pode-se dizer o que for sobre essa moça — e certamente outras coisas mais, além do que diz minha irmã –, mas não deixará de ser verdade que nunca encontrei pessoa mais doce e mais ponderada. E embora nunca tivéssemos concordado, como tambem nao concordava com Ree, éramos felizes os dois por termos aprendido tanto, depois de cada meia hora que passávamos juntos. Não foi por acaso que realizei minha maior obra nesses últimos 12 meses”.
Nietzsche sobre Lou.

Uma musa pede alguém que lhe ofereça pequenas orelhas, alguém que transpire em febre, que afirme a loucura da lucidez diante da dor lancinante. Alguém que atravesse o deserto do ressentimento. Uma musa eh alguém de carne e osso e corpo perecível que precisa de um labirinto p parir. Sou teu labirinto, diz Dionísio. Por isso importa mais a entrada do que a saída. Uma fúria santa p criar. Lou e Nietzsche são um enigma que poeta algum conseguiu separar (a covardia mesquinha de Ree me faz detestar os poetas), determinacao moral alguma conseguiu prender (Elisabeth bem que tentou), tempo algum conseguiu apagar. Ato falho humano que a vida parece ter prazer em afirmar. O inumano se apresenta quando ambos persistiram não em superar, mas em atravessar seus maiores demônios, ele, a solidão e ela, a liberdade. Esse eh o eterno retorno. Uma espécie de sol negro dos tarahumaras. Que atravessa toda a noite e ainda deseja brilhar. Espíritos livres.

O Bar planetário. Bergman

Fazia uma semana que eu não dormia quando a encontrei. Ela habitava esse lugar do delírio sonhado, entre o acordado e o dormindo. Esse lugar que eh mais real do que toda a realidade porque acolhe o mistério.

Foram meses para alcança-la. Quase um ano. Trazia comigo algo muito importante e queria entregar a ela. Algo que me revirava inteira e que me doía e que era tudo o que eu tinha. Tremi para lhe mostrar, tive medo, chorei, e duvidei da minha ousadia em estar ali. E ela me perguntou, sair correndo por medo p depois voltar? Você tem o que, 13 anos? E lembrei que quando tinha 13 anos eu tinha menos medo. Eu era mais corajosa. E senti que mesmo distante dos 13, ainda queria muito mostrar que a vida podia me tocar inteira, que o meu desejo de fazer magia, de ser magia, de afirmar os misterios ainda estavam presentes, me moviam. Queria muito alguém que pudesse ver. Não qualquer alguém. Mas alguém que guardasse dentro de si uma fera. Alguém que fosse capaz de amar ferozmente, de não deixar que matassem a vida ferozmente. Contudo, secretamente guardava em mim a duvida se o que guardava em mim era vida ou morte. Corri o risco e tirei todas as roupas para ela. Havia rugas, havia secreções, havia dores, havia aborto, havia violência, havia um desejo enorme de não existir que me gritava do ódio que eu tinha de não ter coragem suficiente para existir a altura da vida. Foi então que senti mãos amigas tocarem meu corpo ferido. E ela me disse, a ferida que pode ser tocada ganha características de brecha. Não há só muro e só ferida. Mas tem que estar atento. Não pode ser qualquer coisa.

Peça “a peste”. Texto Albert Camus. Adaptação Pedro Osório em parceria com Guilherme Leme Garcia, que também divide a direção com Vera Holtz.

É no momento da desgraça que a gente se habitua à verdade, quer dizer, ao silêncio.”

Fui assistir a peça “a peste” ontem. Texto do Camus, publicado em 1947, direção da Vera Holtz, adaptação do texto do próprio ator, Pedro Osório e de Guilherme Leme. Eh um monólogo.Tudo começa com um rato morto em um dos degraus de uma escada. Não deveria estar ali, diz o medico Rieux, evidenciando o absurdo de uma cidade que em seguida eh tomada por ratos que caem mortos. Logo o contagio atinge os homens e Fecham a cidade, isolamento, exilio, seguir eh o absurdo. Monólogos são difíceis. Implica em dosar o silencio e eh fácil demais sucumbir e suprimir o silencio. Só que o silencio guarda em si a possibilidade de escuta. Território comum entre ator e publico. E num texto denso feito esse, pode ser certo o massacre de condenar-se a um presente caótico sem escapatória para o futuro. Contudo, Pedro Osorio parece topar bem o desafio de trabalhar textos complexos (poderia dizer abstratos?) feito esse. Em 2014 montou “da vida das marionetes”, do filme homonimo de Bergman. Roteiro de uma violência linda.

Bem, se o texto eh uma paulada, o cenário de “a peste” eh árido. Um pilha de carvão, uma pá com a qual o ator passa a peça inteira deslocando um monte p o outro lado do palco. Trabalho que não tem fim e não tem uma forma e nem brilho. Banal. Tédio cotidiano. No livro cerca de 20 personagens experimentam o caos que uma doença contagiosa pode proporcionar. No palco um ator se entrega aos questionamentos que brotam da culpa, punição, medo, isolamento, solidão, de corpos covulsionando em febre, calafrios, fraqueza, dores no corpo, náuseas, vômitos… De um lado a outro, ele, o ator, desenha essa releitura de Camus sobre o mito de sisifo: a certeza de um destino esmagador sem a resignação que deveria acompanha-la. O homem revoltado trabalha p persistir na existencia, encarar o silencio do mundo, sustentar o caos que nos arremessa para longe das certezas, das verdades e da constância. E para manter-se lúcido, não se entregar aos delirios da febre do rato que condena a todos, o personagem invoca a honestidade. Talvez como coragem para ver, suportar o isolamento sem firulas, suportar perceber no que o absurdo nos transforma. Primo Levi diante dessa transformação se perguntou: eh isso um homem? Camus diz, eh o humano o que me interessa. Talvez p ir além dele.

Não vou concluir dizendo que a peca eh boa ou ruim. O desafio de trabalhar um texto com tal força filosófica como o de Camus ja gesta um mérito em si. Esse animo ou essa coragem me contagiam a ponto de não achar justo que o trabalho de digestao de tudo isso seja somente do ator. Tomo a minha parte nisso.

Centro Cultural Banco do Brasil (Teatro 2): Rua Primeiro de Março 66, Centro — 3808-2052. Qui a seg, às 19h30m. R$ 20. 60 minutos. Não recomendado para menores de 16 anos. Até 30 de julho.

4 comentários em “Noticias

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  1. Te encontrei comentando as fotos da Uzyna Uzona, do Zé Celso MONSTRando seu trabalho… te segui até aqui (rsrsrsrs… parece thriller..) e estou a ler sua pena solta, espalhando tinta, desse jeito destemido, como se as entranhas da inspiração fossem uma cesta de almas que você estivesse incumbida de lavar…… talento, bastante talento… te proíbo terminantemente de vir a São Paulo e NÃO me procurar !! Arrogante eu né ? Mas não é isso não… é que em uma outra área da vida, a de comunicação profissional, meu sócio e eu estamos sempre de olho em gente de brilho… escrevemos sem parar… fazemos conteúdo… precisamos de espelhos competentes… dê notícias… continue sendo através de sua sucessão de estares…
    A propósito, BOAS FESTAS e FELIZ TUDO em 2011 !
    Fernando Coelho de Sousa

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    1. Oi, Fernando. Só agora li teu mail. Desculpa ai. Mas esse espaço aqui tá em contrução e dei uma brecada na coisa por conta da vivência de meu mestrado, estudo narrativa em letras na puc-rio, e ano passado fiquei louca com a narrativa do Zé nas peças. Pô, valeu por passar por aqui. Me manda os links do teu trabalho. Beijo grande,
      Sindia

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