Apresentação para seminário imagem tecnologia e subjetividade. Biopolíticas do futuro. UNB. Marcas: das bruxas aos algoritmos. modos de reinventar os signos e se apropriar dos códigos

Marca do diabo, filhas do desejo. Tecnologias de re-existencia. Das bruxas aos algoritmos.

Por Sindia Bugiarda

 

 

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O corpo não é bidimensional. E embora a imagem no espelho nos engane com essa idéia, nos roubando por alguns instantes nossa própria presença, basta flexionar o cotovelo, aproximando antebraço do braço para perceber que não há linha reta no corpo. Cada articulação exige de nós a curva, nossos músculos e ossos são espiralados, mover-se implica em uma dinâmica que nos define (estabelece fronteiras) e que se constitui para dentro e para fora ao mesmo tempo. Nos define, mas não nos determina – não nos impede de ir além das fronteiras, de levar o corpo ao limite, de emprenhar a definição. Porque mover-se implica em colocar em ação muitas informações, muitas das quais não nos damos conta. Esse trabalho é uma pesquisa sobre signos/códigos/gestos. 

Septimus Severus

Um signo invoca a presença de algo e evidencia a ausência de algo. Entre o signo e o algo, existem imagens. Ate ai estamos dentro da tríade sobre o signo, o interpretante e o objeto da teoria semiótica de Charles Pierce.  Um signo nunca vai ser o algo, ele pode ser o rastro de algo, que nos coloca numa zona de vizinhança com o algo, mas nunca poderemos saber o que é o tal algo. Gosto muito de perceber o signo a partir das lentes da bailarina alemãezinhos Mary Wigman. Ela costumava dizer que ao dançar o bailarino produz um duplo com o qual dialoga. Ou seja, dentro dos movimentos escolhidos para serem compartilhados numa coreografia, estão presentes todos os gestos ausentes.

 

Essa noção de que os signos podem definir nossas ações é antiga. Artaud mostra em Heilogabaalo, que o imperador romano Septimus Severus, que reinou em torno dos séculos II e III (entre 193 e 211 d.C, consultava os registros civis para decidir com quem casar-se. O mesmo iperador, conta Michel Foucault no “O governo dos vivos”, a fim de legitimar suas decisoes,  ordenou que fosse pintado a representação do céu do seu nascimento na cúpula do palácio onde se davam as audiências publicas. Ou seja, no céu do recinto onde as sentenças eram emitidas e onde se distribuía a justiça, havia a exata conjunção das estrelas que tinham presidido seu nascimento, e que determinavam seu destino. Haveria maneira mais adequada para inscrever as sentenças particulares e conjunturais no interior do sistema mesmo do mundo? O mesmo o logos que presidia a ordem do mundo e que tinha presidido o seu nascimento, era aquele que organizava, fundava e justificava as sentenças ali pronunciadas, observa Foucault. Sua existencia era entao mais uma circunstância particular do mundo, uma evidencia de que seu reino fundava-se  nos astros e ele, o soldado de Leptis Magna, que se apossou do poder pela força e pela violência, estava no lugar certo e na hora certa para atender a uma necessidade do mundo. Nao fora um erro, ou um acaso, nao fora por um complô dos homens que ele fora chamado para ocupar o lugar onde estava. Aquilo que o direito não pode fundar, os astros lhe tinham justificado.

Então, o fato dos signos constituirem nossos corpos a partir das ações ou das demandas que criam, que nos leva a funcionamentos, nao é uma novidade. Contudo de tão cotidiano, se tornou uma relacao banal, naturalizada, despercebida. Mas os signos seguem nos constituindo e nos dissolvendo, se inscrevendo em nosso corpo, produzindo esquemas corporais e imagens corporais que muitas vezes não coincidem.

Vou citar uma passagem de Zé Gil em Caos e Ritmo:   

“Quando uma criança é atingida por uma enfermidade é indispensável que seu déficit físico lhe seja explicado… (…) só assim ela poderá adquirir uma imagem consciente do corpo são. Se se esconder da criança enferma as causas e as diferenças que formam a sua patologia, a relação de comunicação com seus pais não poderá ser uma relação de verdade. E isso afectara inelutavelmente a relação afetiva da criança com os outros e com o mundo.”, (GIL, 2018, pag. 15).

Comunicar-se tem menos a ver com as mensagem e mais a ver com a produção de ajustes no próprio funcionamento, criando outras possibilidades de corpo e de sujeito. Não eh nada novo. Vou resumir um trecho que Viveiros de Castro escreve em Inconstância de alma selvagem:  após matar um inimigo, o índio araweté fica em estado de morte por cerca de cinco dias, seu corpo esta cheio do sangue de sua vitima, que ele vomita incessantemente. O araweté vive uma morte que diz menos de um simples afastamento da alma do corpo, e mais de um verdadeiro torna-se cadáver.  Esse período termina quando o espirito da vitima retorna e transmite cantos ao matador durante o sono. O inimigo e o arawete vão se fundir no par matador-vitima, e receberão outro nome. A interiorizado do outro não é separada exteriorização do Eu. O domesticar daquele é consubstancial ao enselvajar-se deste ( CASTRO, 2002, págs 267 – 290). 

Chamo a atenção para o ritual que a comunicação performa, que evidencia esse transito onde os códigos inscritos no corpo individual são afirmados no corpo social. E isso diz da insuficiência de dois modos muitos comuns de entendermos nossa relação com o mundo, o realismo e a ideologia. A coisas nao existem por si, no sentido de que pela nossa percepção ela nasce, ganha contornos, e liberdade de agir. E simultaneamente, o signo  da coisa não é a coisa, nada cabe na redução de um signo. Sempre transbordamos.  Entao, a comunicação como ritual que afirma o sujeito enquanto transito (tornar-se quem se é). A operação de dar visibilidade, afirmação da existência, reconhecer-se e reconhece-la, criar modos de funcionar, a comunicação é uma operação muito complexa de produção de uma gramática corporal.

Marca do diabo

Isto exposto, quero compartilhar dois modos de trabalhar com os signos. Vamos para 1484, quando o Malleus Maleficarum foi escrito. A bíblia dos inquisidores publicada dois anos depois, prometia trazer a razão o misticismo pagão. Inquisidores catalogavam essa nova-velha espécie, a bruxa, buscando marcas/estigmas que o diabo teria feito no corpo das acusadas (ele lambia ou arranhava) para firmar o pacto. Sinais de nascença, verrugas, a acusada tinha suas vestes arrancadas e essas marcas eram procuradas sobre sua pele. Depois vinha a confissão obtida mediante tortura. Na busca pela marca do diabo, os inquisidores a produziam. 

As mulheres eram o alvo principal porque, segundo o Malleus, toda bruxaria tem origem na cobiça carnaval, insaciável nas mulheres. Elas não tem controle sob seu corpo, a natureza (igreja do diabo, o vento é a sua respiração). O furor uterino tornava a mulher vulnerável ao poder demoníaco. 

Dito isso, saltamos para 1634, Loudun, interior da França, convento das freiras ursulinas. Acusadas de manter relações com o diabo, 16 ursulinas foram torturadas em publico, levando os membros da inquisição a um dos mais vergonhosos episódios de sua atuação. Mulheres gemiam, gritavam e atacavam seus acusadores em rituais orgásticos de exorcismo que envolviam o uso de purgantes, enemas  (introdução de medicamentos via reto) e eméticos (medicamentos para provocar o vomito.

Num frenesi delirante, que posteriormente tomou todas as mulheres da cidade, as freiras confessaram que um famoso padre da paroquia de St-Pierre du-Marche as seduzia em sonhos. Grandier era rico, bonito e de fato atraia muitas jovens da comunidade, se valendo de seu carisma e posição social para manter relações amorosas com algumas de suas admiradoras. Grandier foi morto, o santo oficio envergonhado, e as freiras poupadas. Consciente ou não do que faziam, ao serem interrogadas pelo inquisidor, elas deixaram de recusar a designação de bruxa, aceitando que morreriam na  fogueira de qualquer modo. Então, aceitaram o papel donzela-inocente-vítima-do-diabo e plantam a semente da discórdia e da dúvida entre inquisidores e expectadores do julgamento. Entendo que atitudes como as das Ursulinas de Loudun podem ter sido um dos pontos que enfraqueceram a igreja, levando ao arrefecimento da atuação do santo oficio, a fim de evitar que as investigações sobre heresia se voltassem contra a própria instituição, colocando sua legitimidade em cheque.

Os algoritmos e Assange

Agora saltamos para 2006, quando o Wikileaks passou a funcionar. Uma plataforma aberta a uploads de documentos cuja importância política ou histórica foram censurados ou tiveram seu conteúdo escondido. A peculiaridade do site é utilizar a maior característica dos algoritmos a seu favor: os algoritmos são sistemas lógicos tão antigos quanto a própria matemática.  Sua definição mais comum é: uma sequência finita de ações executáveis, escrita em linguagem (códigos) de programação, capaz de processar em segundos bilhões de paginas na web. Sua função é realizar uma tarefa (resolver um problema) de forma automática, buscando padrões e produzindo padrões. A peculiaridade da plataforma criada por Assange é que ao buscar e produzir padrões ela esconde os padrões. Sao bilhões de uploads, uma fake data tão imensa que se torna impossível rastrear o endereço que a alimenta. A missão do site é bem clara: criar estratégias globais de publicação que permitam privacidade para a minoria (pessoas comuns) e transparência para poderosas instituições (maioria). A credibilidade do site se da por dois motivos, os editores checam as informações (so publicam o que for 100 por cento verificável), mas não a editam. E foi em cima desse carateriza ético que norteia as ações de Assange que o governo americano construir a base de sua acusação de terrorismo contra Assange. Ao editar, o jornalista assume uma posição, normalmente alinhada com o jornal, que feito os sindicatos, negociam com o estado o que seus leitores podem ou não saber. Assange fez o que poucos editores tem coragem de fazer, nao confundir autoridade com autoritarismo e se abrir para que a notícia para de um mecanismo de composição direta. Talvez pela primeira vez desde o nascimento da impressa tenhamos sido tratados como capazes, algo que destoa da máxima na qual muitos editores se escondem para evitar lidar com as mudanças do real, as pessoas nao leem, nao querem saber, essa noticia nao interessa as pessoas.

 

Ate 2011, quando Assange passou a ser abertamente perseguido e preso por pressão do governo americano, inúmeros foram os documentos vazados, comprometendo políticos famosos, como Hilary Clinton (que ate hoje faz campanha ao estilo, “os Clinton não vão esquecer que lhes estende a mão”, para que Assange, criador e principal editor do site, seja deportado aos EUA e morto), bancos internacionais como o Julius Baer, que se valiam das leis offshore para beneficiar algumas das pessoas mais ricas do mundo e tiveram seus nomes em investigações de sonegar impostos aos seus países de origem,  o próprio governo americano, que teve arquivos vazados em 2010, levando a internet imagens de soldados americanos em um helicóptero atirando em pessoas nas ruas de Bagdá, durante o governo Obama e por fim, o vazamento Snowden que denuncia programas da inteligência americana de vigilância/espionagem (militarizacao da internet). Trata-se de monitoramento utilizando servidores de empresas como Google, Apple e Facebook que não se limita ao território americano, se estende a e vários países da Europa e da América Latina, entre eles o Brasil.

Propor um exercício de percepção. Eu vejo, eu imagino, eu sinto.

A internet demonstrou seu caráter democrático desde o princípio. Em meados dos anos 1990, movimentos sociais se articularam por intermédio da rede, como a insurreição zapatista, que ocorreu no sul do México em 1994. Por outro lado o fenômeno da globalização também foi facilitado pela expansão comunicacional que a rede proporcionou. Empresas se deslocaram e se fragmentaram mundo afora, e também constituíram-se redes de comunicação horizontais que possibilitaram a articulação de movimentos sociais e democráticos, podemos citar a primavera árabe, tunisia, egito (revolucoes), líbia e siria (geurra civil), Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Oma e Iemen (grandes protestos)  e por fim, Kwait, Mauritania, Marrocos, arábia saudita, sudao, Saara ocidental (protestos menores). Twiter, facebook e youtube foram usados para se organizar, comunicar e sensibilizar a comunicação. 

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