Cidade de Santos. De como o jornal ganhou fama e popularidade, até ser desprezado e morto aos 20 anos, mas nunca esquecido

A história dessa história

Um dos primeiros ex-repórteres do CIDADE DE SANTOS com o qual tive contato foi Carlos Mauri Alexandrino, um dos personagens desse livro. Um sujeito alto, com mãos grandes, um sorriso franco e palavras mordazes que acabavam com a minha crenc1a de que jornalismo é a melhor profissão do mundo. “O jornalista é um mercenário! Ele é pago para escrever a ideologia do dono do jornal”.

A afirmação não batia com a o idealismo típico de um jovem que estudava jornalismo. Como podia Carlos Mauri Alexandrino, o repórter investigativo que derrubou um prefeito e 11 vereadores em Cubatão, dizer uma coisa dessas?

Ele foi mais longe: não houve nenhum período da história em que o jornalismo tenha sido corajoso ou audaz. O jornalismo sempre foi usado para atender às necessidades de alguém. Não é a voz dos fracos e oprimidos e não representa o povo. É e sempre foi um meio em busca de poder.

Quanto ao CIDADE DE SANTOS, Alexandrino também foi drástico. Segundo ele, era um jornal como outro qualquer, que fazia as mesmas coisas que qualquer outro jornal fazia: “O CIDADE tentava agradar um determinado setor da população, porque o outro setor, aquele que tinha dinheiro, era de A TRIBUNA. E não havia como brigar com a estrutura e o tradicionalismo dela. Por isso, o CIDADE foi um jornal dirigido para as classes mais pobres. Não foi uma questão de opção, mas de sobrevivência”.

Alexandrino me fez pensar. Ao iniciar este livro estava envolvida com a lenda do CIDADE. Conforme as entrevistas foram se desenvolvendo percebi que os profissionais que trabalhavam para o jornal faziam o mito ser maior do que a realidade. Quando questionados sobre a importância histórica do jornal poucos sabiam justificar isso. 

Com o decorrer as pesquisas e das entrevistas percebi que Alexandrino estava certo. O CIDADE DE SANTOS foi um jornal como qualquer outro, voltado para um público específico, com interesses privados e que insistia em se colocar como uma espécie de “justiceiro” para ganhar a confiança de seus leitores.

Mas após o fechamento do CIDADE, a cidade ficou desfalcada em termos de informação. O jornalista Clóvis Galvão, que trabalhou como secretário de redação em A TRIBUNA, afirma que apesar da falta de tecnologia, o jornalismo santista era muito mais ousado, criativo e investigativo. Para Galvão, muito disso foi por causa do CIDADE DE SANTOS.

Durante as entrevistas para este livro, algumas histórias nunca batiam. Um delas foi a respeito de quem escreveu o editorial É o resto é silêncio, publicado na última edição do CIDADE, em 15 de setembro de 1987: foi Blandy ou Sampaio? Nenhum dos dois chegou a uma acordo. Outra coisa foi o episódio das “galinhas” de Frias. Ele teria ou na6o declarado a frase na reunião para discutir o fechamento do jornal?

Quinze anos depois, os jornalistas que passaram pelo CIDADE DE SANTOS deram rumos novos as suas vidas e esta pode ser uma explicação para a falta de memória deles sobre o jornal. Por exemplo: as comissões que foram a São Paulo negociar com a Empresa Folha da Manhã o não-fechamento   do CIDADE DE SANTOS quando foram formadas?Quem as integrou? Eis um fato sobre o qual só obtive informações esparsas, indecisas e confusas.

Tive de entrevistar várias vezes os personagens envolvidos até formar um quadro da situação. Também não houve registro por parte do Sindicato dos Jornalistas sobre o fechamento do CIDADE — a entidade não possui atas ou qualquer outro documento sobre isso.

Como a reconstrução da história do jornal dependia muitos dos entrevistados, utilizei seus depoimentos para poder resgatar fatos passados, pesquisados na Hemeroteca Roldão Mendes Rosa, A hemeroteca tem arquivado todas as edições do CIDADE, mas o acervo se encontra em péssimo estado: é comum encontrarmos edições rasgadas e com paginas faltando ou então a falta da edição completa — como a do dia 8 de setembro de 1985, que traz a matreira sobre a Sessão secreta na câmara dos vereadores de Santos. A má estrutura da hemeroteca também é um problema: os jornais ficam jogados em prateleiras empoeiradas logo abaixo das infiltrações, que nos dias chuvosos fazem a poeira se misturar a água, deixando os jornais literalmente na lama.

Outro local que guarda parte da coleção do CIDADE DE SANTOS é o arquivo da UniSantos. Apesar de ter recebido do próprio jornal todos os exemplares, incluindo o arquivo que Marcílio Araújo levou 18 anos para montar, só é possível encontrar as edições de julho de 1967 e depois de setembro de 1972 até 1987. O arquivo com 18 mil temas desapareceu, ninguém sabe dar explicações a respeito. Em São Paulo, existe um arquivo do banco de dados da Folha de S.Paulo que possui todos os exemplares do CIDADE DE SANTOS, mas o custo da pesquisa inviabilizaria a elaboração desse trabalho.

Outra dificuldade: informações como circulação, vendagem e numero de funcionários do CIDADE DE SANTOS constituem uma verdadeira incógnita. Até para a Empresa Folha da Manhã, cujos funcionários do Banco de Dados dizem nunca ter ouvido falar sobre o jornal. Nem mesmo o Manual de Redação da Folha de S.Paulo — que destina verbetes sobre os jornais da empresa — se refere ao CIDADE (refiro-me aqui especificamente ao Manual de 1984).  

Ao final de 33 entrevistas e de meses de pesquisa, reconstruí parte da história do CIDADE. Alexandrino não teve sucesso tentar me fazer crer que jornalismo não é a melhor profissão do mundo. Inclusive, porque seus atos não condizem com suas palavras. Atos que ficaram impressos e que fizeram parte dos bons momentos do CIDADE. E palavras que, apesar de mordazes, preservam a sua verdade. E é justamente esse o dever do jornalista, preservar a verdade com que se depara. Mesmo que essa verdade só seja o outro lado da moeda, esse é o primeiro passo para reconstruir a história. 

Finalmente devo dizer que a estrutura desse livro-reportagem tem como fontes de inspiração os escritores e jornalistas Truman Capote – A sangue frio; Gay Talese – O reino e o poder (Uma história do New York Times); e Gabriel Garcia Márquez – Relato de um Náufrago. 

    

1

Nao foi nada agradável fechar O CIDADE DE SANTOS. Não queria despedir todos aqueles profissionais. Mas o jornal não dava lucro. Nos 20 anos em que funcionou, sempre deu prejuízo. (Octávio Frias de Oliveira)

_ Ninguém vai levar nada! Ninguém entra aqui!

Eram 18h15 do dia 14 dw setembro de 1987 quando os jornalistas do CIDADE DE SANTOS receberam de São Paulo a notícia definitiva de que aquela seria a última edição do jornal. 

Eles pararam o que estavam fazendo e correram ao arquivo para saqueá-lo. O arquivista Marcílio de Araújo tentava impedi-los:

_ Ninguém vai levar nada! Ninguém entra aqui!

Desde a manhã, eles sabiam que aquele poderia ser o último dia do CIDADE, mas tinham esperanças de que a comissão que fora a São Paulo para uma tentativa de acordo com a Empresa Folha da Manhã conseguisse reverter a situação.

A comissão era formada pelos repórteres Ercilia Pouças Feitosa, Noemi Francesca de Macedo, Vera Lúcia Corrêa, Eraldo José dos Santos, Elaine Luna e o chefe do Departamento de Publicidade, Irineu Camargo.

Divididos em dois carros, eles subiram a serra em direção a Alameda Barão de Limeira, 425, endereço da Empresa Folha da Manhã. Foram quase seis horas entre viagem, negociação e a volta a Santos.

_ Fomos a São Paulo para ouvir que tínhamos menos importância do que galinhas e cachorros.

Logo ao chegar em São Paulo, os membros da comissão enfrentaram o primeiro obstáculo – como não marcaram horário, o dono da empresa Folha da Manhã, Octavio Frias de Oliveira não podia recebe-los.

Ercilia, Noemi, Irineu, Vera, Eraldo e Elaine recusaram-se a ir embora, até que frias foi vencido pela insistência. Eles foram levados para a sala de reuniões – um recinto enorme e vazio, no 9° andar. O único objeto que decorava a sala era um mesa grande e cinza. As feições de Frias nao escondiam seu humor.

Ercilia:

_ Ele ouviu todas as sugestões e sem alterar um único músculo do rosto foi ríspido e seco: “Tenho 1.500 galinhas para cuidar. Não estou com cabeça para resolver o problema do CIDADE”.

Noemi: 

_ Para ele os 150 profissionais que perderiam o emprego valiam manos do que as galinhas e sua granja, em São José dos Campos.

Frias desmente a cena. Para ele, a história da reunião não aconteceu dessa maneira: 

_ Nao seria lúcido ou inteligente de minha parte provocar ou humilhar os funcionários do jornal. Não é costume meu tratar as pessoas dessa maneira. Eu as respeito e me preocupo com elas. Não foi nada agradável fechar o CIDADE DE SANTOS. Não queria despedir todos aquelas profissionais. Mas o jornal não dava lucro. Nos 20 anos em que funcionou, sempre deu prejuízo.

Depois de sair da sala de Frias a comissão foi ao 8°andar para falar com Carlos Caldeira Filho, o sócio mais interessado no CIDADE DE SANTOS. O grupo pediu um audiência com ele e foi atendido.

A sal de Caldeira era o oposto da de Frias. Para chegar a mesa dele, que ficava no fundo da sala, era preciso passar por um selva de plantas, papagaios, periquitos e araras.

Ao se deparar com a figura de caldeira, o grupo levou o primeiro choque. O homem alto, forte, com aparência costumeiramente saudável era outro – visivelmente abatido, cansado, magro, com olheiras.

A cena que seguiu a conversa foi patética para os seis membros da comissão. O comportamento de Caldeira estava alterado. Ele que sempre fora um homem empreendedor, decidido, conhecido por sua generosidade e excentricidade, divagava. Sua mulher, Leodéa Bierrenbach de Lima Caldeira, havia falecido recentemente e sua filha estava na França tratando-se de leucemia. Ao tentar explicar seus problemas, Caldeira disse:

Hoje é um dia muito triste para mim. Minha cachorrinha acabou de passar por um cirurgia. Não estou com cabeça para ajudar vocês…

Em seguida, Caldeira fez um gesto que surpreendeu. Abaixando um dos lados da calca de moletom branco mostrou um pedaço da fralda que era obrigado a usar por causa da um recente operação na próstata: 

_ Mal consigo chegar ao banheiro. O que vocês querem que eu faça?

Naquele momento, o grupo percebeu que o CIDADE realmente chegara ao fim. 

Nesse ponto, os membros da comissão e Frias concordam. Caldeira demonstrava pouca preocupação com o fim do jornal. Frias conta que o jornal foi criado para Caldeira e só fechou por dois motivos. O primeiro foi o desinteresse de Caldeira.

Frias:

_ Pouco antes do jornal fechar, Caldeira veio a mim e pediu que a sociedade se desfizesse. Passou-me os seus 50% da Folha da Manhã em troca de alguns imóveis da empresa. Caldeira dizia que estava cansado e velho, achava que iria morrer logo. Sua principal preocupação era deixar a família bem de vida.

O segundo motivo foi o fato de O CIDADE comprometer a vendagem da Folha de S.Paulo da Baixada Santista.

Frias:

_ O mercado da Baixada era ótimo para a Folha de S.Paulo e não para o CIDADE DE SANTOS. Com o CIDADE só tínhamos prejuízo. Além de trabalhar sempre no vermelho, tirava um número de leitores que seria mais interessante para a Folha. 

O grupo deixou o prédio da Folha e começou a ligar para a imprensa, O fim do CIDADE DE SANTOS merecia ser notícia. Com a ajuda de um amigo que trabalhava na BBC de Londres, Noemi conseguiu que o fechamento do jornal fosse parar nas páginas francês Le Monde.

Em Santos, o secretário de redação do CIDADE, João Moreira de Sampaio Neto, pedia calma aos colegas. Um telefonema de Ercilia informou sobre o fracasso da comissão.

_ O jornal acabou. É melhor vocês irem à luta – disse Sampaio aos que ainda acreditavam que. Coisas pudesse conseguir algum acordo.

_ Quando percebi que não havia mais nada a fazer, sentei e chorei. Perdi o rumo. Depois do fechamento do CIDADE, não me encontrei mais profissionalmente – confessa a ex-repórter Arylce Tomaz Cardoso. 

       

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

Outras Palavras

Fia quem confia que o algoodão pode virar linha, que linha entrelaçada é tecido, palavra, texto.

Blog do Zé Celso

presidente e diretor artístico da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona

ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Razão Inadequada

Uma postura inadequada é a nossa maneira de viver em uma cultura da adequação...

WordPress.com

WordPress.com is the best place for your personal blog or business site.

%d blogueiros gostam disto: