O corpo na mala amarela que você carrega

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Ser devastada eh perceber as infiltrações que a ausência da sua mala amarela no armário repentinamente me traz. Dou falta dela de repente e todos os dias de manhã quando acordo. Eh quando sou devastada, ao perceber meu corpo frio, esquartejado dentro da mala que voce carrega. Virei o fantasma da casa que fizemos juntos. Um fantasma que cuida da gata e paga as contas e faz a manutenção desse lugar que se desfaz, indiferente as lágrimas que teimam em transbordar de mim p mim. Eh a mesma indiferença que percebo no locador da casa quando lhe digo, “sua casa, que amo tanto, vai se desfazer, me ajude a cuidar dela”. E ele fica de me ligar e por dias espero essa ligação que nunca vem, enquanto a agua some dos canos do chuveiro, e vaza pelo aquecedor e aos poucos e ininterruptamente me afoga e me apaga. E esse fantasma que me submerge, encontra respiro no animo que a moradora nova cheia de vida trouxe quando veio morar comigo, feito imagino tenha acontecido com voce quando foi morar com a guria pela qual trocou a mim, nossa casa, nossa gata, nossos planos. Eh, eu sei, eh nitido que voce nao a ama, mas vai amar. Porque amar não eh  encontrar alguém especial p ir se encaixar perfeitamente em nossos expectativas afetivas e financeiras. Amar eh escolher viver a vida com alguém e todos os dias reafirmar essa escolha. Isso eu sabia, sempre soube da beleza que o cotidiano pode produzir. O que nao sabia, era que amar também eh recusar dizer sim. Eh escolher negar p afirmar.  Se amar eh antes de tudo afirmar a liberdade de dizer “sim, quero parir, criar modos de con-fiar com o outro”, sei o quanto estava esteril, sei que nao acreditava mais que poderia fazer aflorar o minimo de vida, e tinha tanto medo de tocar esse lugar em mim que não queria que ninguém mais o tocasse. Foi quando você parou de fazer sexo. Você percebeu que eu te traía. Não com outra pessoa. Ninguém nunca estaria a sua altura, simplesmente porque ninguém teria a capacidade de ser você. O que eu traía eram os nossos planos de ousar ter fome de reinvenção p nos reinventarmos. Te traí porque fui fraca. E fui fraca porque não acreditei que o impossível eh feito dos possíveis banais e cotidianos. Você tem razão quando diz “as coisas são banais”. As banalidades são o suor, a secreção que não nos deixa acreditar na comodidade dos afetos assepticos. Não existe amor sem partos constantes. Não deixar você tocar nas minhas feridas, me recusar a parir minha própria maternidade que mata e produz vida indistintamente, foi me recusar a olhar p o sangue, a secreção, a placenta que todo nascimento envolve. Acolho agora nos braços essa criança limpa e morta, linda e perfeita, desejada e sem vida. Isso eh o que mais me dói qdo olho p o espaço vazio da mala amarela que você retirou sem ao menos me dizer adeus, quando decidiu “não quero mais estar aqui”.

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