Nossa liberdade é um campo de batalha

Não entendo porque a questão do assédio se coloca agora demandando unanimidade. As reações a carta-manifesto do Collective, assinada por artistas francesas, entre elas, Catherine Deneuve são de uma violência tamanha que expressam as forcas reativas do conflito. Diante desse cenário, ninguém pode dizer: sim, há situações em que eh engraçado ser assediada e situações que em que não. Mas se me esforço um tanto, posso lembrar de um cara que passou de bicicleta na rua e me disse,  se fosse laranja eu chupava todinha. Achei muito engraçado. Primeiro porque adoro chupar laranja e depois, porque gosto que me chupem.  E juntar essas duas coisas foi inusitado e eu pude rir, pensando na avidez com que chupo uma laranja.  Também posso recordar situações bem ruins, como a que ocorreu uns meses atrás em que meu porteiro, de quem gosto muito, me vendo chegar trebada em casa, segurou minha por mais tempo do que um aperto de mãos pede e me puxou em sua direção.  Ralhei tão forte com ele que por dias me cumprimentou de cabeça baixa e quando dei um chocolate de presente de ano novo, não me abraçou. E eu o abraçaria, porque não acho que machismo seja identidade, questão de sujeito, mas de funcionamento. Todos nos somos constituídos por ele em alguma instancia.

Bem, voltando a carta assinada por Deneuve. Fiquei sabendo dela através do post de um amigo no facebook, que dizia que a atriz francesa era melhor nas telas do que pensando. Fiz um comentário em que ressalte que se fossemos rezar pela cartilha das feministas que ele defendia, seu post não tinha legitimidade, já que por ser homem ele não podia protagonizar um assunto que diz respeito as mulheres e além disso, o comentário era machista. O amigo me respondeu acusando Deneuve e as francesas, todas burras, a unificar paquera com assedio. A carta faz justamente o contrario, abre dizendo: 

“Rape is a crime. But trying to pick up someone, however persistently or clumsily, is not — nor is gallantry an attack of machismo”.

Consegui levantar dois pontos que me parecem interessantes na carta. 1) O texto traz dois tipos de assedio sexual, um num sentido amplo, como essas cantadas que descrevo acima, mas também assedio num sentido restrito que implica numa coerção sobre alguém subordinado ou tutelado.

2)  A liberdade de dizer não a uma proposta sexual esta ligada ao ato de importunar. 

Agora, p mim, fato eh, o único modo de intervir em ações machistas eh lidando com elas. Não há o que nos garanta segurança. Nem p mulher e nem p homem. Responder a essa violência afirmando o costume de pensar o poder como algo que pressiona o sujeito de fora, que subordina, submete, e relega a uma ordem inferior, certamente é assumir o lugar de vitima e acionar o mesmo funcionamento que massacra e constitui esse personagem mulher. Só que nessa luta não basta se opor, não basta ressentir, não basta ficar na reação. Se é verdade que o poder vem de fora, não é mentira que o poder também é algo que forma o sujeito, determina a condição de sua existência,  a trajetória de seu desejo. E não nos evangelizemos,   o poder não é privilegio do machos alfa que constituem o patriarcado. Dependemos do poder p existir, o abrir anos e os mantemos em nos. 

Então, vou fazer uma confissão, a fim de expurgar os assedio que cometi. Quando quero transar com alguém, chego na pessoa e falo. Não suporto corte. Isso porque prefiro a pessoa que chega em mim e fala o que quer abertamente, situação em que posso resolver com um notório NÃO, do que aqueles caras que ficam se esgueirando ao meu redor, se fingindo de amigo, deixando uma mão escapar aqui ou ali, caras tão covardes q não dizem o que querem justo por medo que o não lhes fira o ego.  Então, quando ouço coisas grosseiras como, ontem sonhei q gozava na sua boca ou comia o seu cu, digo, isso ai, vai sonhando, porque nunca vai acontecer. Normalmente o caras param de falar comigo, primeiro porque cansam e segundo, porque vão percebendo tamanho da própria idiotice, e isso eh insuportável.  Mas prefiro lidar assim, do que por exemplo, quando transo com alguém que no calor da intimidade e do afeto, me cobra por não engolir seu esperma, que eh sinal de carinho e blá blá blá, carinho eh igual a faca aquilo que quero. Então, embora eu goste de lidar diretamente com as questões, por achar muito mais fácil, procuro não perder algo de vista, que eh o seguinte: “a sujeição consiste precisamente nessa dependência fundamental de um discurso que nunca escolhemos, mas que, paradoxal ente, inicia e sustenta nossa ação.  Sujeição significa tanto o processo de se tornar subordinado pelo poder quanto o processo de se tornar um sujeito”.

Na carta manifesto há mais duas coisas interessantes, sobre o corpo da mulher e sobre a liberdade. Num dado momento o texto afirma que acidentes podem tocar o corpo de uma mulher, mas não necessariamente atingir sua dignidade. Que não somos redutiveis ao nosso corpo. E que isso torna possível que não sejam aos vitimas perpétuas. Bem, acredito numa via meio enviesada disso. Não somos vitimas perpétuas porque podemos seguir capengas mesmo quando nosso corpo fica reduzido a uma dignidade triturada por séculos de tutoria, algo ainda tão presente que mal conseguimos sair do delírio de um patriarcado machos alfa. Reduzimos nossa liberdade a uma decepcionante queda na consciência infeliz. Nossa liberdade não é inviolável, ela não é sagrada. Nossa liberdade é um campo de batalha onde tentamos nos livrar do senhor, que num primeiro momento pode parecer externo a nos mesmos, mas logo se apresenta como nossa própria autocensura, que se estende ao outro, como uma carga que devemos arrastar, produzimos um mestre em uma realidade psíquica, a própria consciência do escravo. 

Assim, o  que me preocupa no machismo é esse intenso discurso que joga o politicamente correto na cara do outro para força-lo a abrir mão de seus processos de luta e a dobrar-se a sacra e superior vontade alheia. Seja seus protagonistas homens ou mulheres, trans, deus ou o diabo.

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