Toda reminiscencia é erótica

 

“Uma sucessão de instante não faz o tempo; ela também o desfaz; nele ela marca somente o ponto de nascimento, sempre abortado”. Deleuze, 2000, 142)

 

Nervosa caminhava de um lado a outro. Estancava. Enraivecia-se. Amedrontava-se. Roia as unhas e voltava a caminhar. Nervosa. De um lado a outro. Fazia cinquenta minutos, duas horas, a madrugada inteira. O elevador subia e descia, já era manha, 17 vezes, ela havia contado. Agora, é agora! Nada. Nada acontecia. Tudo acontecia. Além ou aquém dela. Parou de contar as subidas e descidas do elevador, descia, subia e não trazia ninguém. A quem ela esperava? Enlouquecia? De um lado ao outro. Roía as unhas. Então viu o sangue emergir da raiz da unha a ponta do dedo. Aproximou o dedo do rosto e o buraco se abriu. Ela estava dentro.

Era toda carne a latejar, entrecortada por fios alaranjados que se iluminavam bombeando sangue e por detrás deles, tendões, músculos, ossos, secreções. Decidiu ir além. Escamou mais a pele e veio a ardência. Não podia mais parar. Desceu até a mão, pulsos, braços, ombros, devagar o tecido fino desabrochava. Mais ardência, peito, costas, pernas, pés.

O vento entrou pela janela, balançou a cortina e lançou-a violentamente ao chão. Inteira ela queimava, movia-se involuntariamente, esgarçavam-se. Vertia-lhe água do corpo, a dor a impedia de permanecer de pé, músculos afundavam-se em tendões e cartilagens, tudo fora do lugar. Tentou segurar a forma que perdia, já não havia boca para gritar.  Na sala escura, a espera do que nunca chegaria, viu seus órgãos lustrosos vazar-lhe reto afora, boca, garganta adentro. Engula. Não adiantava mais vomitar. A questão não era a saída, solucionar, consertar, o desafio era como entrar.

 

—–

 

Diante da porta do quarto, o cheiro de esperma tomou-lhe os sentidos. E ela o viu trepando violentamente com a Tara da Cura. Tare Tuttare Ture Soha, a entidade de cor verde lhe olhou nos olhos, a expressão destensionada, como se não sentisse as estocadas violentas que o homem as suas costas lhe desferia. Sem emitir som algum, a entidade lhe explicou tudo. Não, não era traição. TARE é aquela que liberta do sofrimento verdadeiro. TUTTARE é a que elimina todos os medos. TURE é a que concede todo o sucesso. SOHA é o sussurro para que o significado do mantra possa enraizar-se na sua mente.

 

A língua salivou, o estômago contraiu-se, instantes antes dela sentir o cu invadido por alguma raiz octópode, que se movia autonomamente. Tentou correr, não queria raiz alguma em seu cu. As pernas falharam, arrastava-se no chão, os olhos seguiram a trilha de pele escamada que ela mesma deixava para trás, do quarto ao banheiro. Sangue misturava-se ao um líquido viscoso com a consistência e cheiro de esperma. Ao mesmo tempo em que recebia as investidas do homem as suas costas, a entidade botava pela boca o filho abortado do casamento de 10 anos.

Quero saber o que mais ao perder, ganho, pensava com os olhos inchados, atônitos. Tentava equilibrar-se no canto ao lado da cama. A cama, extensão de seu corpo, ela e a cama, um embolado de memória que inchava a pele, e se mexia em ondulações subterrâneas. Insuportavelmente viva. Não distinguia começo e fim, escorria em todas as direções, transformava-se em coisa indefinida. Os dentes e os olhos entortavam-se no que seria um rosto, e já não era; essa coisa que ela se tornava sem parar deslizava na direção de si própria, afundava logo abaixo do nariz, movimento sagital que lhe abria a nuca. Sofria e não havia expressão para aquela dor, não havia rosto, não havia como reconhecer. Entretanto, sem dúvida, algo dela ainda permanecia ali.

 

 

Então a porta abriu, ele chegou. Quem era ele? Sem pernas deslizei ao seu encontro, e com o resto de alegria quis mostrar-lhe minha descoberta. Eu podia muito, eu podia não ter forma. Ele assustou-se, com as costas das mãos deu-me um safanão e jogou-me adiante e na sequencia fechou o punho e tentou me esmagar; feito um inseto, recuei, me recolhi inteira para algum canto de mim. A expressão de descontentamento assustou-me mais do que o gesto que me machucara. Minha pele secou repentinamente e fui tomada por uma sede imensa. Busquei o boxe do banheiro e meti-me embaixo do chuveiro. Os olhos grudados no chão do piso frio, que me ajudava a respirar; tornei-me toda inspiração e repulsa e revesti-me de cores, cores que trazia por baixo da pele, num passado que agora se atualizava, escapando-me como um peido. Só então ele olhou-me com encantamento. E sussurrou, estou apaixonado por outra pessoa… O vento que escapou de seu lábio contava a história de todos os tempos.

A água que escorria por mim, evidenciava todas as dobras, brechas de indefinição que eu era naquele instante. Dei-me conta que o homem em pé a minha frente era um estranho, cujos nervos expostos eram tão expressivos quanto uma mão do avesso. Uma mão do avesso a esmagar um inseto. Lembrei-me do enterro, a mulher pesada no caixão parecendo uma protestante, lenços enfeitando-lhe a cabeça. Fora de sincronia. Imagem atemporal: bonita, parece sorrir, soluça o marido diante da esposa morta, enquanto simultaneamente traz as mãos dadas com a amante de anos, que uma passo atrás dele, chorava. Todos os defuntos parecem sorrir. O filho olhava vazio para o corpo da mãe morta. Em meu pesar a odeio, ele confessava em silencio, na mesma frase em que me dizia: não tenha medo, amo você. Ao ser capaz de sentir pela primeira vez “amo você”, dito assim numa sala fechada em meio a um velório, percebi um lugar embaixo das costelas esquentar. Eu era concebida pela segunda vez e nesta acreditei que podia viver. Era o ritual fúnebre a se atualizar, velávamos. Velávamo-nos. Ele queria chorar e suspenso no tempo não obtinha sucesso. Sabia que se o fizesse os nervos retesar-se-iam e a brisa que o sussurro de suas palavras trariam seriam insuportáveis, o fariam tombar. A contenção é um homem perturbado: “pensamento nasce na boca, na hora em que é expresso”, bradava em abstrações em critica aos intelectuais e emudecia.

_ O que faço para ser feliz? A mãe lhe perguntava pouco antes de completar sessenta anos, pouco antes de morrer, pasma diante da prescrição médica. Como ser feliz depois de 40 anos casada, dividindo o marido com outra família, brigando com o papel de dona de casa?! Somente um médico para sentenciar a morte usando jingles cantados nos corredores da rede de supermercado pão de açúcar: o que faz você feliz? Um amante? Uma amante. As palavras morriam agora em seus lábios que se desfaziam. A mãe morreria dois meses depois, com os lábios ressecados, inférteis por tanta palavra abortada.

Ele me traiu de todas as formas que um homem pode trair uma mulher, da forma que somente alguém que ama poderia fazer. Não importava mais. Ela se atualizava agora no passado da mulher morta no velório, de todas as mulheres mortas nos velórios dos quais ouviu dizer e assistiu desde muito pequena.

Os dias seguiram ao velório sem que resquício de lágrima viesse lhe confortar o peito.

_ Me apaixonei por outra pessoa. A confissão ecoava em suas orelhas, enquanto a porta se fechava empurrando-a para fora de casa. Ao atravessar a porta, sua alforria. Liberdade sem comemoração, peito de escravo que detém o desejo de permanecer preso ao que não vê, violência que não se percebe violenta. E então, ela percebeu, percebi. Eu não existia mais, e não fazia diferença sua mãe morta ou viva. Ele não a perdoava, nunca a deixaria partir, nunca a deixaria entrar. Por quanto tempo arrastaria esse cadáver.

Seguia para o trabalho de cabeça baixa, olhos sem brilho. Não havia sentido digladiar-se com assistentes sociais que empapavam na boca direitos humanos e caridade. Então, calava-se diante da chefe de feições perfeitas, rabo grande e vida infeliz. Já não contava o tempo para sair do trabalho, deixava os ponteiros navegar no relógio e quanto atingia seis horas, nenhuma terra a vista. E assim os dias seguiam.

A casa sem sua mãe era feito bibelô velho. As coisas iam ficando no mesmo lugar, até que cansavam a vista e ficavam invisíveis. Com o tempo foram esquecidas, mudavam de lugar e ninguém percebia, perderam suas origens e vagavam perdidas.

Os dois gatos reclamavam a presença e as mudanças que a ausência da mulher lhes impunha. Deixaram de comer, dormiam mal, acordavam pela manha e miavam pedindo ração, mas ninguém ouvia.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s